Falhei?

Sinemys

Em 2011 lancei uma empresa. A minha 3ª empresa. A Sinemys. Era uma empresa que ambicionava dar passos lentos mas sólidos e, por isso, o nome de uma espécie extinta de tartaruga parecia fazer todo o sentido.

A vontade de montar esta empresa tinha surgido pelo facto de eu e o Luís Ramalho sentirmos que tínhamos competências complementares. Tínhamo-nos conhecido algum tempo antes no âmbito de trabalho conjunto na Bwizer – eu era cliente do Luís através do projecto Fisiozone – e, paulatinamente, fomos desenvolvendo uma relação de respeito mútuo.

Nas conversas que fomos tendo, mesmo antes de idealizarmos uma empresa em comum, percebemos que tínhamos ambos espírito empreendedor – o Luís dedicava-se a projectos online salvo erro desde 2004 e eu, tinha já duas empresas, a Bwizer e a Belpac.

Quando duas pessoas empreendedoras se juntam, nunca se sabe o que pode dali surgir mas é bem possível que algo surja! E assim foi: decidimos criar a Sinemys e ao projecto juntou-se o Manuel Paquete.

A ideia original centrava-se no desenvolvimento de projectos de comércio online. E assim, em 2011, mais uma empresa via a luz do dia!

Faço um bypass ao processo da Sinemys e salto para o desfecho: a meio de 2014 encerrávamos a empresa, com perdas de alguns milhares de euros.

Apesar de ser a terceira empresa que criava, hoje reconheço que demasiadas coisas deixavam antever este fim. Partilho as que me parecem mais relevantes:

1) sem um motor, nenhuma empresa anda, muito menos uma start-up: quando iniciámos a empresa o Luís estava na Escócia, em St Andrews, a estudar computer science. Por mais boa vontade que tivesse, não tinha o tempo suficiente para o projecto. Já eu, geria duas empresas e não podia dedicar-lhes menos tempo.

2) por mais forte que seja o motor, tem limitações: eu era o motor em duas empresas, duas empresas ainda juniores e bastante dependentes de mim. Repetir esse papel numa terceira, ao mesmo tempo, pura e simplesmente não foi possível.

3) as expectativas sobre o papel de cada sócio têm que ser claras: eu assumi um determinado para o Luís e o Luís assumiu outro para mim. O azar é que as expectativas de cada um não eram propriamente congruentes…

4) a ideia de negócio tem que ser sólida: sendo verdade que um produto não tem que estar totalmente pronto antes de ser colocado no mercado – veja-se a este propósito os insights de Eric Ries em “The Lean Startup” – tem contudo que haver uma ideia de negócio robusta e que guie as acções diárias. Ora, na Sinemys, flutuámos imensas vezes sobre qual deveria ser o papel da empresa e, de uma ideia inicial na área do comércio electrónico, acabámos no desenvolvimento web com uma paixão especial por Ruby on Rails. Pelo meio, passámos por várias outras estações! Está bem de ver que esta volatilidade estratégica é contra qualquer regra de bom senso.

5) if you have to fail, fail fast: bem antes do fim formal da empresa, o seu destino estava traçado. Tivéssemos sido mais pragmáticos na análise e na decisão, mais depressa teríamos resolvido o problema e menos tempo e menos dinheiro teríamos gasto.

6) não financie empresas que não funcionam (por mais bonito que seja o logo!): a Sinemys foi beneficiando de viver no ecossistema da Bwizer e da Belpac. Isso permitiu retirar-lhe alguma pressão financeira o que, no caso de se tratar de uma empresa com rentabilidade, teria sido óptimo. O problema é que não era. E o benefício de existir num ecossistema que não implica custos ou, pelo menos, custos elevados, leva a procrastinar na tomada das decisões que têm que ser tomadas.

Poderia continuar esta lista mas creio já ilustrar bem a magnitude e quantidade de erros cometidos.

Porém, todo este projecto, incluindo o encerramento da empresa, teve uma série de virtudes:

1) Fiquei muitíssimo mais desperto para a importância da tecnologia na dinâmica de qualquer negócio e isso levou a mudanças significativas na Bwizer.

2) Obrigou-me a estudar outros modelos de negócio, reforçando a minha agilidade mental para “pensar em negócio”.

3) Reforçou a minha percepção de valor do papel das redes sociais na estratégia comercial das empresas.

4) Levou ao reforço da estrutura societária da Belpac e da Bwizer, com a entrada de mais um sócio, o José Vidrago, com impactos muitíssimo positivos no funcionamento das empresas fruto da sua experiência e do seu conhecimento. O Vidrago acabou por se juntar porque, num primeiro momento, se colocou a hipótese de se juntar à Sinemys, uma hipótese que não se concretizou.

5) Já sei como se fecha uma empresa!

6) Introduziu-me a um novo negócio, assente em domínios.pt genéricos. Com a liberalização dos domínios.pt a 1 de Maio de 2012, a Sinemys decidiu investir no registo de uma série de domínios. Eu repeti o exercício a nível pessoal e o mesmo fez a Bwizer. A Bwizer, aliás, deve hoje ser a empresa com o mais valioso portfolio de domínios.pt na área da saúde, destacando-se grande parte das especialidades médicas e de medicina dentária. Eu, entretanto, já vendi alguns domínios e, muito provavelmente, já recuperei as perdas que a Sinemys me tinha trazido!

A Sinemys falhou. E eu, terei falhado também?

O que sei é que não me arrependo nada deste projecto. Sou, graças a ele, um empreendedor mais capaz. Às vezes flagelamo-nos excessivamente com os fracassos, esquecendo-nos de ver que um sucesso pode estar a despontar.

Envio um abraço a todos aqueles que já lançaram um projecto que não correu tão bem como previam!

Hugo Belchior

PS. Se desse lado alguém quiser partilhar uma história de um empreendimento mal sucedido mas com resultados secundários positivos, tenho muita curiosidade em o conhecer.

Os foguetes não são a festa toda

No dia 8 de Junho escrevi um artigo sobre um varredor. Dei-lhe o nome “Varredor de ruas“.

Foi um artigo que escrevi em 20 minutos, sem grande preparação. Apenas passei para texto a reflexão que tinha articulado durante aquela tarde. Para surpresa minha, o artigo ganhou viralidade e, muito rapidamente, chegou a milhares de pessoas. Houve largas dezenas a deixarem o seu comentário e a entrarem com contacto comigo por canais diferentes.

Acabo de ver as estatísticas e o artigo já ultrapassou as 100.000 visualizações.

Estatísticas 100k

Naturalmente que um resultado destes é recompensador. Afinal, é sinal que aquilo que escrevi tocou muita gente.

E creio que o segredo foi a genuinidade do relato e o apelo que fazia a uma perspectiva de reconhecimento e valorização do outro, mesmo daqueles a quem muitas vezes se presta menos atenção.

Mas, aquilo que aqui me importa hoje trazer é uma reflexão sobre os hypes, os fogachos, os foguetes. Sejamos claros: para alguém que tem uma perspectiva de longo prazo da sua carreira e da sua presença online, um hype, só por si, vale pouco. O que interessa é a capacidade de trazer conteúdo relevante, post atrás de post.

O exercício não é fácil e representa um enorme desafio a todos aqueles, bloggers e empresas, que pretendam ter uma existência online. Contudo, quem pretender ter uma vida longa, não tem alternativa a esse exercício permanente.

Numa altura em que a falta de paciência é reinante e a maioria fantasia com o sucesso fácil de reality-show, é bom pensar que 100.000 visualizações é um belo número mas, muito mais importante que um foguete matutino que anuncia a festa, é manter a festa sempre, a um grande ritmo.

Este artigo seguramente não despertará o interesse de 100.000 pessoas. Talvez nem de 100. Mas, tenho sempre a hipótese de tentar de novo, noutro dia qualquer.

Vemo-nos por aí!

Chegadas e partidas

Estou no México. E não, não estou a banhos. O México é bem mais que Acapulco ou Cancún – que nem conheço.

Detalhe mural Diego Rivera

Depois de pouco mais de um dia na Cidade do México, cidade que me impactou pelo ambiente fervilhante do seu centro histórico, vim para Querétaro. E vim trabalhar.

Nesta sexta-feira e Sábado vai decorrer, nesta surpreendentemente bonita cidade, um curso da Bwizer, empresa que co-fundei em 2008. Sim, vamos organizar um curso no México!

Há uns meses, através de um contacto em comum, descobri um jovem empreendedor mexicano. Sem planos nada concretos, começámos a falar. A certa altura, de forma bem natural, fomos transformando em realidade o desejo de fazermos algo em conjunto. E, dessa forma aparentemente tão simples, surgiu o plano de um primeiro curso da Bwizer por estas terras. O curso será com um dos fisioterapeutas da equipa de futebol do Real Madrid e é já um êxito! E isso enche-me de satisfação. Daquela satisfação que talvez só um empreendedor pode entender. A satisfação de ver concretizado algo que numa certa altura só existiu na minha mente e, ainda por cima, com impacto marcante na vida destas pessoas.

É uma sensação viciante, de um vício que nem sinto diminuir em mim, nem que quero perder.

Faço estas reflexões à mesa de uma “cantina” local, música mexicana como pano de fundo. Estou sozinho. E estou a desfrutar do momento, depois de um dia intenso de trabalho com o jovem Guillermo, ultimando todos os detalhes do curso, e de uma conferência que o antecede.

Gosto de pessoas com fome de fazer coisas. O Guillermo é uma delas. Vim ao México testemunhar um evento Bwizer mas, sobretudo, conhecer ao vivo as pessoas que, até agora, estavam do outro lado do email e do telefone. Estou a meio da minha estadia e já podia partir satisfeito. Porque já iria mais rico.

Viajar é extraordinário. Conhecemos pessoas novas. Algumas, inspiradoras. Conhecemos novos lugares. Mas, sobretudo, conhecemo-nos melhor a nós próprios. E os momentos em que estamos sós, como este, são excelentes para reflexão. Por que razão faço tudo isto? Quais são os custos destas escolhas?

E, se a ambição de tornar real a visão que tenho para a Bwizer me ajuda a estar muito focado, mesmo deste lado do Atlântico, tenho total noção que isto vem com um custo. Às vezes, com um custo elevado.

Imensas vezes viajo e pouco mais vejo que o hotel e o local onde estiver a trabalhar. Muitas vezes, passo muito tempo sozinho. Quase sempre, do ponto de vista financeiro, o esforço é elevado. Umas vezes divirto-me, outras nem tanto. Raras vezes me queixo.

São os custos de um projecto definido, planeado e em execução.

E, desta vez, o custo é claramente alto: perdi o nascimento do primeiro filho de um grande amigo. De um dos meus melhores amigos. O abraço ao pai e à mãe, e o beijo temeroso no pequeno rebento vão ter que ficar um pouco para mais tarde. Sê bem-vivido pequeno Francisco Duarte!  Se um dia estiveres longe dos teus amigos num momento especial para eles, como eu estou quando pela primeira vez tu viste a luz do mundo, sabe que os sacrifícios que porventura possas estar a suportar fazem muito mais sentido por teres bons amigos.

Despeço-me com um até já e até sempre, desejando-te apenas uma coisa: que um dia possas ter um amigo como o teu pai é meu amigo. Serás um homem rico.

Varredor de ruas

Há já largos meses me tinha chamado a atenção a forma de trabalhar do varredor da zona onde moro.

Muito cedo, pouco depois das 7 da manhã, era frequente vê-lo já a trabalhar. À tarde, lá estava ele, noutra rua. No inverno, com chuva e frio. No verão, com sol e calor. E sempre, sempre, com a mesma energia. A mesma frenética dedicação. Dei comigo admirando o profissionalismo daquele jovem indivíduo.

Decidi que um dia que nos cruzássemos a pé, lhe diria que tinha reparado no seu trabalho e que o admirava.

Os meses foram passando e, quando passava por ele, ia de carro. Ainda pensei em parar algumas vezes mas nunca o fiz. Acho que, arrogantemente, não queria correr o risco de ficar desiludido. Afinal, não o conhecia de lado nenhum.

Mas, hoje, à hora de almoço, ao estacionar em frente a casa, carro com A/C no frio máximo, eis que o vejo do outro lado da rua.

Fui ter com ele. Suava em bica. O calor era infernal.

Cumprimentei-o e começámos a falar. Perguntei-lhe a que horas começava a trabalhar, à guisa de ice-breaker, e disse-lhe que admirava o seu trabalho porque, estivesse frio ou calor, chovesse ou fizesse Sol, o via sempre com o mesmo empenho e dedicação quando, em bom rigor, se trabalhasse com menos ritmo, certamente ninguém se preocuparia em demasia.

Com o elogio devolveu-me um sorriso e resumiu toda a razão da sua dedicação com um singelo: “É preciso ter gosto no que se faz”.

Falámos um pouco mais e ele, orgulhoso, disse-me que não era a primeira pessoa que o elogiava, que lhe tinham dito algumas vezes que nunca as ruas tinham estado tão limpas – o que confirmo – e que ele o fazia assim porque era “perfeccionista”; que gostava de fazer as coisas bem feitas.

Explicou-me o seu conceito de brio apontando para uns enormes eucaliptos a 30 m de distância, dizendo que naquela zona, o fim de uma rua sem saída, sempre cheio de folhas, chegava a apanhar folha a folha do chão, para tudo ficar perfeito.

Dei-lhe uma vez mais os parabéns pelo bom trabalho, cumprimentei-o e entrei em casa.

Entrei em casa e continuava a pensar no varredor e decidi que o seu brio devia ser celebrado. Pensei que merecia uma entrada neste blog – a minha homenagem singela – e voltei a sair de casa.

Estava precisamente ao lado dos tais eucaliptos, metido no seu trabalho como sempre.

Ficou meio surpreendido quando me voltou a ver, e mais supreendido ficou quando lhe disse que achava o seu exemplo tão relevante – a maioria das pessoas no seu lugar, com o seu ordenado e com a dureza da tarefa, certamente se contentaria em fazer um trabalho menor – que o queria relatar no meu blog. Sorriu de novo. Perguntei-lhe se podíamos tirar uma foto e simpaticamente autorizou.

Marco - Varredor de Ruas

Continuámos a falar. Tem 28 anos – parece mais velho, que o Sol e o frio não perdoam – trabalha como varredor há 8. Veio destacado de outra zona porque mais nenhum colega estava a conseguir varrer todas aquelas ruas no tempo definido. Como a tarefa estava a ser impossível, o chefe desafiou-o a ele. E ele, deu conta do recado!

Perguntei-lhe se já tinha sido premiado por isso. “Pagar mais não pagam. Mas dão-me uns serviços extra. E isso dá-me mais um dinheiro importante no fim do mês.” E quando entrou na empresa, rapidamente passou aos quadros – nem sequer fez todo o trajecto que os outros fazem – porque gostaram logo do seu trabalho.

Disse-me ainda que antes de começar naquele trabalho já tinha passado por várias “artes” e que fazia qualquer coisa que precisasse de ser feita. E ele até tinha formação em informática mas, curiosamente, nunca tinha trabalhado naquela área.

Se queria mudar? Não, para já estava bem. Eram certos a pagar, estava efectivo e gostava do que fazia. E no final do mês, com todos os extra, já ganhava um ordenado simpático – o número final surpreendeu-me pela positiva.

Disse-me tudo isto sempre com um sorriso. E agora, enquanto escrevo estas linhas, sentado a uma secretária, ar condicionado ligado, garrafa de água ao lado, lembro-me das palavras sábias do varredor: “É preciso ter gosto no que se faz.”

Do que consigo ver – o resultado do seu trabalho – não duvido que é um excelente profissional. Um profissional que vai para além daquilo que são os mínimos. E que, indiscutivelmente, coloca paixão no que faz.

O varredor chama-se Marco. Amanhã estará certamente no seu posto de trabalho às 7 horas da manhã com vontade de deixar o seu rasto, limpando o rasto de outros. O Marco é varredor e, hoje, deu-me uma lição.

PS. Junto esta informação 40.000 visualizações depois! Muitas pessoas têm perguntado onde trabalha o Marco Monteiro. Trabalha na zona de Leça do Balio (Santana), através da empresa VerdeVista.

Ser masoquista pode ser bom

Sadomasoquismo

É excelente quando tudo corre bem. Os resultados ultrapassam o esperado, os clientes entram por nossa casa adentro, o cash-flow acumula-se, a euforia está no ar, a sensação de que somos melhores do que a concorrência está à flor da pele.

Adoro a sensação.

Mas este cenário encerra um risco. O risco da arrogância da vitória.

A história está cheia de exemplos de belas empresas que, arrogantemente, descansaram à sombra do seu sucesso. “Se somos tão bem sucedidos hoje, graças à nossa genialidade, é óbvio que amanhã continuaremos a ser geniais. E, por arrasto, continuaremos a ser bem sucedidos.” A armadilha da vaidade está sempre à vista mas, geração após geração, o ser humano fica lá preso.

Creio portanto ser necessário, mesmo nos momentos em que as coisas correm bem, e mais ainda quando há alguns indicadores menos interessantes, que se institua uma cultura de pré-pânico. Uma cultura em que, sem se chegar ao pânico, não se deixa demasiado espaço para relaxar, uma cultura em que a sensação de finitude do sucesso está sempre presente.

Sejamos claros: é da natureza humana relaxar quando as coisas estão bem – é inteligente, do ponto de vista de alocação de energia – o problema é que o mundo, e sobretudo o mundo empresarial, é tão dinâmico e tão volátil que, se o relaxamento se institucionalizar, não se conseguem mobilizar as energias necessárias para antecipar problemas futuros e resolver problemas presentes, com a argúcia e agilidade que se conseguiria num ambiente de menos certezas.

Naturalmente que não defendo que as pessoas não relaxem – eu próprio tenho vindo, ao longo dos anos, a aprender a dedicar mais tempo ao descanso e relaxamento – o que sim defendo é que as empresas não relaxem. Não acho nada que uma organização deva relaxar. A tranquilidade organizacional facilmente redunda em marasmo – ainda que inconsciente – com consequências que só podem ser negativas.

Claro que o risco desta perspectiva é passar-se às equipas demasiada ansiedade e uma sensação de permanente frustração. É um risco que deve ser controlado contudo, no limite, entre um estado de quase-frustração e um estado de regozijo cristalizador por resultados passados, opto claramente pela primeiro.

Talvez esta opção revele uma tendência algo masoquista mas, neste particular, diria que o masoquismo daquele que nunca se satisfaz verdadeiramente ou durante demasiado tempo, é um masoquismo útil. Um masoquismo que fará as suas vítimas mas que, porventura, será mais eficaz na criação de empresas vencedoras. A consciência apurada da necessidade de construção hoje, dos resultados de amanhã, desperta os nossos sentidos e prepara-nos para as batalhas que temos que travar.

A força da repetição

Sou um praticante júnior (bastante júnior) de Krav Maga, arte marcial israelita. Tem componentes

de boxe, ju-jitsu, wrestling, etc. Há combate em pé e no chão. Há combate de mãos nuas e contra

arma branca. Inclui também movimentos de defesa contra arma de fogo. E por aí fora.

Sou um tipo que nunca fez exercício de forma dedicada ao longo da vida e, menos, artes marciais

ou desportos de combate.

Hoje, faço algum esforço para aprender. Às vezes é frustrante. Por várias razões – e nem vou

considerar as de natureza física. Primeiro, porque adquirir proficiência no gesto técnico é difícil.

Segundo, porque é difícil recordar aquilo que se aprende num treino, no treino seguinte. Terceiro,

porque o automatismo, quando o contexto se altera um pouco, tarda em aparecer.

Olho para os colegas de nível mais avançado não sem inveja. Que bom seria se, com o (não)

esforço de um clique, garantisse o download de todo aquele conhecimento de forma imediata!

Claro que há dois aspectos que me afastam muito dos colegas mais avançados. O primeiro é que,

na maioria dos casos, iniciaram este treino numa idade bem inferior àquela em que eu

comecei. O segundo, mais importante, é que já repetiram aqueles gestos milhares de vezes mais

do que eu. Começar mais cedo ajuda, está claro, desde logo porque permite ter-se mais tempo

para repetir mais vezes.

Hugo Belchior Krav Maga

A proficiência numa qualquer actividade terá certamente uma componente de predisposição

individual – por mais que treinasse, nunca seria um Messi – contudo, porventura com excepção

dos verdadeiros outliers, a proficiência vem apenas da repetição. Afincada, dedicada, sistemática.

E, naturalmente, corrigindo os erros. Dia após dia. Repetição após repetição.

Se isto se aplica em qualquer actividade desportiva, também se aplica na gestão. Quanto mais

vezes conduzo reuniões e melhor as quero conduzir, tendo a melhorar neste aspecto. O mesmo

para análises financeiras, campanhas de marketing, conversas difíceis com colaboradores,

negociação com fornecedores, e por aí fora.

Uns com mais facilidade do que outros, todos aprendemos. Agora, será que todos temos a

mesma fome de aprender? A mesma determinação para repetir? E se, em cada uma das coisas

que fazemos, tivéssemos a determinação e dedicação de um Cristiano Ronaldo? Ou a paixão que

o Ayrton Senna tinha?

É hora de descansar. Ainda estou a recuperar do treino de Krav Maga de ontem. E ainda por cima

foi combate no solo. E, mais uma vez, ficou dolorosamente claro que tenho que treinar

muitas mais vezes. Milhares de vezes!

O valor do valor que acrescento

Recentemente fui convidado para uma palestra numa instituição de ensino superior, organizado pelo respectivo gabinete de apoio à inserção na vida activa.
Depois de uma parte mais expositiva seguiu-se uma sessão de perguntas e respostas.

A última pergunta que me fizeram foi “quanto acha que deve ser o valor mínimo que um profissional de saúde deve ganhar?”.

Respondi genuinamente que não sabia. E não sei. Não sei qual deve ser o preço (valor que essa pessoa deve cobrar) sem saber o valor que acrescenta (o que valem os resultados do seu trabalho). De forma propositadamente provocatória, disse que alguém pode receber o ordenado mínimo e estar, porventura, a ser demasiado bem pago…

Digo isto, com o risco de ser mal interpretado, para ilustrar uma ideia que aqui queria hoje deixar: a ideia de valor acrescentado. E a ideia é bem simples e aplica-se a indivíduos e organizações: aquilo que cada um recebe – em condições de normal concorrência – depende em larga medida do valor que consegue acrescentar. E esse valor tem inevitavelmente que ser traduzido em resultados: se não houver quem pague por aquilo que produzo, não conta.

Este conceito pode às vezes parecer cruel e afasta-se seguramente daquilo que muitas vezes está enraizado na nossa cultura de matriz católica, onde o esforço – o caminho pré-resultado – é valorizado em si mesmo. Acontece que, o mero esforço, sem resultado, não tem valor económico. Ou melhor, terá talvez um valor bem inferior às expectativas de quem o produz e, por arrasto, leva a remunerações (salários ou dividendos) mais baixos do que o desejado.

Quem produz um trabalho de mais valor acrescentado? O agricultor que, esforçando-se à exaustão, lavra um pequeno terreno com o seu arado puxado por uma junta de bois, ou o condutor de um moderno tractor que, na mesma quantidade de horas, lavra uma quantidade de hectares muitíssimo maior, porventura até com o conforto do ar condicionado? Alguém poderá dizer que o agricultor do arado se “esforçou” menos do que o condutor do tractor? Mas, poderá alguém, com honestidade intelectual, dizer que os trabalhos valeram o mesmo, uma vez que o retorno que um poderá retirar é muitíssimo menor que o do outro? (se ambos plantarem batatas, o velho agricultor seguramente terá muito menos toneladas de batatas para vender do que o aquele que usa meios mais produtivos)
arado
É hora de se deixar o esforço como métrica – por mais meritório que possa ser – e passar a focar-se mais na rentabilidade, no resultado. É a solução mais justa porque é aquela que poderá melhor remunerar quem o mercado decide, livremente, que acrescenta mais valor.

E isto não se aplica no éter. Aplica-se nos fisioterapeutas, nos personal trainers, nos explicadores, nos futebolistas, nos vendedores de gelados e em todas as empresas.

Escrevo estas linhas e forço-me a pensar na minha própria vida e na das minhas empresas. Quando uma coisa corre menos bem a tentação de arranjar desculpas externas pode ser grande. A concorrência, o mercado, os colaboradores, o que seja. E se isso pode efectivamente contribuir para o problema, o busílis estará sempre na valorização do valor que estou (ou não) a acrescentar e na proporção de custos que a sua produção está a exigir.

Termino o texto e vou trabalhar, arduamente. Porque isto de tentar acrescentar valor dá muito trabalho!

Uber, Sindicatos, Ordens e a necessidade de proteger o cliente…de si mesmo

UberJá muito se falou sobre a decisão do tribunal sobre a operação da Uber em Portugal, tendo deliberado no sentido da sua proibição. Deixo desde já claro que independentemente do juridiquês que aqui se possa aplicar, sou por princípio contrário às decisões que visem a manutenção de quem já está no mercado, protegendo-os de concorrentes mais inovadores.
Não me vou alongar excessivamente sobre este facto em concreto até porque me revejo bastante no artigo de José Manuel Fernandes, no Observador, e cuja leitura aconselho.

O que me importa aqui explorar é que esta postura de defesa dos poderes instalados é transversal a vários blocos da sociedade portuguesa. Demasiados. Os tribunais serão apenas um deles. Os sindicatos e as ordens profissionais – que na maior parte dos casos, nada mais são que sindicatos travestidos, apesar da sua missão ser a defesa do interesse público e não a defesa da corporação, são outro dos blocos que seguem o mesmo registo.

Conheço especialmente o sector da saúde e o das suas corporações. Em todas que vou conhecendo, sem excepção, há uma brutal pulsão regulatória e proteccionista. Uma pulsão sistematicamente apresentada externa e internamente como algo que visa a defesa do superior interesse do utente (curiosamente, muitas das posições, desde logo no que toca aos “limites de actuação” de cada profissão, são muitas vezes concorrentes, ficando-se sem saber quem melhor defende os interesses dos cidadãos…), procurando-se omitir o óbvio: aquilo que realmente se visa é proteger a corporação e os seus actores actuais (e nem sequer, obviamente, os seus actores futuros).

É tão mais sedutor proteger juridicamente um qualquer mercado do que ter que o proteger pelo  real valor acrescentado dos seus actores – o que implica ter que antecipar ou reagir à concorrência, desde logo à concorrência disruptiva – que, definitivamente, não há corporação que não tente seguir este caminho.

A história da Uber e da reacção dos taxistas adquire assim um impressionante paralelismo com o atavismo de tantas corporações profissionais: quer-se limitar a concorrência, mesmo que essa concorrência seja sancionada pelos clientes!

O desprezo pelo cliente, pela sua liberdade de escolha e, por esta via, o fim do incentivo à inovação, é angustiante e não augura nada de bom neste velho Portugal e nesta velhíssima Europa. Nestes momentos temo, ainda com mais intensidade, pelo nosso futuro colectivo e dá-me vontade de emigrar. Não à procura de subsídios, mercados maiores ou melhor clima. Emigrar apenas em busca de maior liberdade! Em busca de um lugar onde os poderes instalados podem efectivamente ser desafiados, sem ter que se bloquear a inovação com providências cautelares ou greves. Um lugar onde é o cliente – cada um de nós – que está no centro das preocupações. Um lugar sem rendas garantidas para quem presta um serviço, seja ele qual for. Um lugar onde o rendimento vem do mérito, determinado pela livre escolha do cliente.

Felizmente, naquilo que posso controlar, que é a estratégia da minha empresa, já vamos dando passos no sentido de estarmos menos dependentes do jugo opressor da velhinha pátria e do abraço protector – Graças a Deus – dos nossos taxistas, tão zelosos dos seus serviços de excelência…

Ninguém gosta de restaurantes vazios

mercado-de-san-miguelPor razões profissionais, passei os últimos dias em Madrid – estamos num processo de internacionalização da Bwizer – e na passada noite de 6a dei comigo a jantar pelo centro. O meu primeiro impulso foi ir ao mercado de San Miguel – espaço bem movimentado e muito animado – contudo, como estava um pouco cansado, pensei que o melhor seria comer sentado – tarefa quase impossível no mercado de San Miguel.
Fui então caminhando sem destino.
Acabei por entrar num restaurante onde vi que muito facilmente teria mesa mas que não estava totalmente vazio.
Para espanto meu, quando entrei apercebi-me de uma zona de balcão bastante preenchida e muito animada. Essa zona não se via de fora.
Mantive o plano e fui para sala de jantar. Precisava mesmo de me sentar!

A certa altura reflecti sobre o meu processo escolha daquele restaurante. E fi-lo, motivado pela análise do comportamento das pessoas que circulavam na rua, e que de onde estava sentado, conseguia ver. Inúmeras pessoas aproximavam-se da porta do restaurante, espreitavam para a sala de jantar, pouco preenchida, e seguiam caminho.
Quantas pessoas mais entrariam no restaurante se vissem o movimento que a zona do balcão tinha? Acredito que muitas mais.
Desconheço se esta estratégia do restaurante é deliberada – fiz algumas perguntas e percebi que trabalham muito com grandes grupos com pré-reserva – o que sei é que gente chama gente. Movimento traz movimento.
É o efeito da “prova social” e da “prova da comunidade”. Sentimo-nos muito mais seguros quando percorremos caminhos onde outros também andam. Tendemos a confiar mais naquilo em que parece que os outros também confiam. Aliás, eu próprio só entrei naquele restaurante porque não estava completamente vazio…

Enquanto estava nestas reflexões, recordei uma reunião que tinha tido no dia anterior. Uma reunião com uma empresa que trabalha na área da performance, e que trabalha com um modelo interessantíssimo, de base americana. E, como trabalham sobretudo no universo corporativo, muitas vezes com executivos de topo, são obrigados a acordos de sigilo, não podendo portanto divulgar quem são os seus clientes ou, pelo menos, quem são os seus clientes individuais.
Durante essa reunião, o responsável da dita empresa lamentava um pouco essa limitação do negócio, com a consciência de que sem essa restrição, o seu resultado comercial dispararia. E por quê? Por que razão gostamos sempre de saber que um produto que nos propomos comprar foi já comprado por outros?

Não sei exactamente quais as razoes que estão na base destes comportamentos. Haverá seguramente imensas, desde logo a nível sociológico. Essa análise, contudo, não cabe aqui; o que me importa hoje constatar é a importância da “prova social”, para o deixar a pensar como poderia aplicar estes princípios ao seu negócio. E até, ao seu marketing pessoal.

Comecemos por este último.

Tem perfil no LinkedIn ? E quantos contactos tem? Meia dúzia? Ou tem umas centenas? Na hora de se conectar a alguém, que perfis tende a privilegiar, aqueles que têm 7 ou 8 contactos ou os quer têm algumas centenas?
Provavelmente, tenderá a valorizar mais aquelas pessoas que têm uma base de contactos mais sólida; sentirá que têm mais valor e, provavelmente, pensará isto porque considerará que se têm tantos contactos é porque também os outros lhe atribuem valor. E assim, o ciclo estabelece-se.

E no que respeita ao nível empresarial?

Usa, por exemplo, uma pagina de Facebook a nível empresarial? E dá a conhecer os seus clientes ou guarda-os a 7 chaves, apenas divulgando os seus produtos numa perspectiva comercial típica? Mostra quem são os clientes que consomem os seus produtos ou prefere não o fazer? Porquê?

Nalguns casos muito específicos, reconheço que a total ausência de informação sobre os clientes poderá fazer sentido; já numa empresa que venda a retalho, dificilmente fará. Na Bwizer assumimos a importância deste aspecto e procuramos utilizá-lo da melhor forma. Desde logo, através da nossa gestão das redes sociais. Mas não só. Aportar “prova social” aos produtos que se vende é um esforço contínuo e, seguramente, um esforço com retorno. Fará mais sentido as empresas comunicarem os seus produtos directamente ou deixar que sejam os seus clientes a fazê-lo? O que trará mais credibilidade (desde que feito com genuinidade)?

E, não posso deixar de esboçar um sorriso quando recordo que, não há muito tempo, um dos nossos concorrentes (da Bwizer) assumia na sua página de FB que não divulgava fotos de cursos para respeitar a privacidade dos clientes (o que, naturalmente, faz todo o sentido se as pessoas não autorizarem a utilização da sua imagem); curiosamente, agora publicam fotos de tudo quanto é curso, mostrando os seus clientes. E fazem bem. Não apenas porque assim envolvem mais os clientes nos seus processos mas também porque, assim, a concorrência (nós) consegue fazer uma melhor análise… 🙂

Quantos aos restaurantes vazios, esses, provavelmente assim continuarão…

Turma Bwizer Mad Abril2015

Cerveja, Sun Tzu e o valor acrescentado

Hofbrauhaus 1Na semana passada fui a Munique para uma reunião e aproveitei para um pouco de turismo. Dei comigo num dos bares tradicionais mais famosos da cidade, o Hofbrauhaus.
É talvez o mais conhecido bar/restaurante de Munique, ponto de paragem obrigatório de cada visitante da cidade, e que figura em todos os guias de viagem. A sua história iniciou-se em 1589 e confunde-se com a história da própria cerveja bávara. Uma bela cerveja, que tem sido testemunha de incontáveis histórias ao longo dos séculos e… de imensas receitas fiscais para o Estado a partir do momento em que os governantes se aperceberam do potencial financeiro de tão apreciada bebida!

 
Este restaurante tem milhares de lugares mas , sistematicamente, não são suficientes para toda a procura. O ambiente é realmente interessante e convida a novas visitas.

Estava eu a degustar, pouco a pouco, 1L daquela belíssima cerveja – depois das 18h não servem menor quantidade – quando decidi ocupar o tempo de alguma maneira.
Vasculhei o meu telefone o descobri a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu, livro que nunca tinha acabado de ler.

Estava a ler a obra deste general chinês do séc., VI AC, ainda hoje lido, estudado e seguido, e a beber uma cerveja com 400 anos de história, e pus-me a pensar no conceito de valor acrescentado. (Não sei se abona muito em relação ao meu estado mental mas, foi no que pensei.)
Hofbrauhaus 3
Haverá melhor prova de valor acrescentado sustentado que o teste do tempo? Que marcas (ou produtos) que hoje conhecemos cá estarão daqui a 400 anos? Ou que autores serão lidos e respeitados daqui a mais de 2000 anos?
E, por que é que ainda hoje bebemos aquela cerveja e enchemos o bar – ao ponto de tornar o serviço ao cliente em algo secundário (não é necessário!) – e por que razão continuamos a ler e a estudar Sun Tzu?

Porque milhões de pessoas querem aquela cerveja, naquele bar e, mais pessoas ainda (ou talvez seja ao contrário), querem ler Sun Tzu. Porque lhes reconhecemos valor, em suma!

Mas, o que é ter valor acrescentado? É conseguir aportar alguma vantagem ao consumidor e/ou promover um ímpeto de adicional de compra – não há valor acrescentado se não se traduzir em sucesso comercial.

As razões na base desse ímpeto serão infindáveis e seguramente variarão muito de produto para produto ou de marca para marca. Mas, têm que existir. E, para além disso, se se mantêm no tempo, como no caso do Hofbrauhaus e da Arte da Guerra, é seguramente porque assentam em características muito dificilmente replicáveis.

Não faltam livros sobre estratégia militar e empresarial. Marcas de cerveja e cervejarias, são aos milhares. E, no meio de todo este ambiente competitivo (bem sei que no caso da cerveja HB, a marca é legalmente protegida desde 1879), estes dois produtos subsistem e evoluem. E, apenas, pela decisão livre de milhares de consumidores.

Não criei ainda um produto que venha a aguentar-se 400 anos e, definitivamente, nunca escrevi um livro. Enquanto esse momento não chega, chamo o funcionário de ar carrancudo e peço uma outra caneca de cerveja. Afinal, não era assim tanta…

Com um abraço do,
Hugo Belchior