O valor do valor que acrescento

Recentemente fui convidado para uma palestra numa instituição de ensino superior, organizado pelo respectivo gabinete de apoio à inserção na vida activa.
Depois de uma parte mais expositiva seguiu-se uma sessão de perguntas e respostas.

A última pergunta que me fizeram foi “quanto acha que deve ser o valor mínimo que um profissional de saúde deve ganhar?”.

Respondi genuinamente que não sabia. E não sei. Não sei qual deve ser o preço (valor que essa pessoa deve cobrar) sem saber o valor que acrescenta (o que valem os resultados do seu trabalho). De forma propositadamente provocatória, disse que alguém pode receber o ordenado mínimo e estar, porventura, a ser demasiado bem pago…

Digo isto, com o risco de ser mal interpretado, para ilustrar uma ideia que aqui queria hoje deixar: a ideia de valor acrescentado. E a ideia é bem simples e aplica-se a indivíduos e organizações: aquilo que cada um recebe – em condições de normal concorrência – depende em larga medida do valor que consegue acrescentar. E esse valor tem inevitavelmente que ser traduzido em resultados: se não houver quem pague por aquilo que produzo, não conta.

Este conceito pode às vezes parecer cruel e afasta-se seguramente daquilo que muitas vezes está enraizado na nossa cultura de matriz católica, onde o esforço – o caminho pré-resultado – é valorizado em si mesmo. Acontece que, o mero esforço, sem resultado, não tem valor económico. Ou melhor, terá talvez um valor bem inferior às expectativas de quem o produz e, por arrasto, leva a remunerações (salários ou dividendos) mais baixos do que o desejado.

Quem produz um trabalho de mais valor acrescentado? O agricultor que, esforçando-se à exaustão, lavra um pequeno terreno com o seu arado puxado por uma junta de bois, ou o condutor de um moderno tractor que, na mesma quantidade de horas, lavra uma quantidade de hectares muitíssimo maior, porventura até com o conforto do ar condicionado? Alguém poderá dizer que o agricultor do arado se “esforçou” menos do que o condutor do tractor? Mas, poderá alguém, com honestidade intelectual, dizer que os trabalhos valeram o mesmo, uma vez que o retorno que um poderá retirar é muitíssimo menor que o do outro? (se ambos plantarem batatas, o velho agricultor seguramente terá muito menos toneladas de batatas para vender do que o aquele que usa meios mais produtivos)
arado
É hora de se deixar o esforço como métrica – por mais meritório que possa ser – e passar a focar-se mais na rentabilidade, no resultado. É a solução mais justa porque é aquela que poderá melhor remunerar quem o mercado decide, livremente, que acrescenta mais valor.

E isto não se aplica no éter. Aplica-se nos fisioterapeutas, nos personal trainers, nos explicadores, nos futebolistas, nos vendedores de gelados e em todas as empresas.

Escrevo estas linhas e forço-me a pensar na minha própria vida e na das minhas empresas. Quando uma coisa corre menos bem a tentação de arranjar desculpas externas pode ser grande. A concorrência, o mercado, os colaboradores, o que seja. E se isso pode efectivamente contribuir para o problema, o busílis estará sempre na valorização do valor que estou (ou não) a acrescentar e na proporção de custos que a sua produção está a exigir.

Termino o texto e vou trabalhar, arduamente. Porque isto de tentar acrescentar valor dá muito trabalho!

2 pensamentos sobre “O valor do valor que acrescento

  1. Caro Hugo,
    Tenho lido atentamente todas as tuas reflexões e já muitas vezes tive vontade de as comentar, mas como te imagino com pouco tempo livre até hoje evitei.
    Faço-o hoje, depois de ter lido esta tua reflexão e por já ter muitas vezes debatido este mesmo tema, com várias pessoas nomeadamente relativamente à minha profissão.
    Como é que se pode avaliar o valor do trabalho de um polícia?
    Será pelo número de crimes cometidos na sua área de jurisdição?
    Será pelo número de multas que passa?
    Pelas número de detenções que o elemento efetua?
    Etc…
    Haveria e há muitos pontos de vista, para mim um bom serviço de polícia será sempre o que melhor protege os direitos dos cidadãos, desde que estes não esqueçam que também existem os deveres e sobretudo quando sabem os riscos a que se expõem e nada fazem para os evitar (como o caso das pessoas muitas vezes por nós atingidas inocentemente nas manifestações/aglomerados de gente).
    Ao contrário do esforço e rentabilidade do exemplo dos agricultores que poderá ser quantificável, numa análise minuciosa aos gastos dos custos de compra e manutenção do trator e junta de bois, à capacidade de produção de cada um deles, às diferenças de despesas de um terreno pequeno e um grande, etc.
    Já o trabalho de um polícia ultrapassa, a meu ver, este tipo de análise, não podem avaliar o valor do meu trabalho pelos números que apresento (multas, detenções, autos elaborados, etc.) porque apresentar números é fácil difícil é conseguir cumprir o lema da nossa missão “Prevenir e Assegurar as Pessoas e Bens”.
    Como é que se pode quantificar isto?
    Como é que que um comandante pode afirmar que este elemento é melhor ou pior que outro?
    Na minha modesta ótica e experiência, a única forma de podermos ser avaliados será com acompanhamento diário no terreno, na análise da solução que encontramos nos problemas que os cidadãos nos apresentam e sobretudo, simplificar e auxiliar ao máximo o cidadão e SABER chamá-lo à razão quando este está errado ou cometeu alguma ilegalidade, recorrendo a todos os meios nesse sentido, numa escalada adequada e diretamente proporcional aos problemas e cidadãos em questão.
    Veja-se o caso recentemente mediático de Guimarães, eu vi-o pela primeira vez na Lincoln Street – Miami, quando encontrei e me juntei a um adepto do GLORIOSO a festejar o 34º. A minha primeira leitura, conhecendo eu bem os adeptos do Guimarães, foi a que o elemento policial tentou chamar à razão o pai, para o perigo que este poderia estar a expor os seus filhos, chamada esta que o pai não quis acatar por se julgar capaz de analisar melhor a situação que o profissional que a ali se encontrava a zelar pela sua segurança e sobretudo da dos seus filhos menores.
    Houve excessos? Concordo. Mas uma coisa te garanto, já assisti a vários jogos de futebol, concertos, etc. em que os ambientes eram efetivamente hostis, alguma vez fui agredido? Não. Sorte? Experiência? Talvez, mas principalmente por alguma acuidade, há sítios que sabemos de antemão que não devemos frequentar, Guimarães é disso exemplo, muito menos envergando cachecóis e camisolas de um clube rival…

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    • Meu caro,
      É um gosto poder contar com esta tua reflexão.
      Tocas em pontos bem relevantes. Reconheço que medir o valor económico do trabalho, nomeadamente entre duas pessoas com as mesmas funções, não é um problema fácil de resolver.
      E, podendo ser difícil de determinar, certamente que concordaremos que um polícia (para tentar seguir o teu exemplo) que consegue evitar problemas, ou que os controla com danos mínimos, é alguém que acrescenta mais valor que o outro que, procurando os mesmos fins, o faz com consequências piores ou nem sequer os atinge. E isso dependerá da consciênica de cada um, do seu treino, da formação e até, admito, do equipamento que tiver disponível. Pode haver razões na base de valores acrescentados distintos mas, que eles existem, existem. E, em tom provocatório, mantendo ainda o exemplo, poderia dizer que se acho que os polícias são genericamente mal pagos – uma vez que a segurança é um das funções nucleares do Estado – arrisco dizer que há alguns demasiado bem pagos (ainda que sejam dos que ganham menos) se gastarem o seu tempo a não fazer nada, a fechar os olhos a situações em que deveriam intervir, etc. Certamente concordarás. A dificuldade, claro está, está na forma de avaliar isso e de ser congruente com essa avaliação: quem trabalha mal dever ser castigado e quem trabalha bem, e com elevado valor acrescentado, deveria ser premiado.

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